sexta-feira, 30 de abril de 2010

Nós temos armas, não somos armas!!

Fico furioso quando me deparo com ocorrências que no início até parecem ser graves e depois descubro que não passam de caprichos de pessoas que nos tentam usar para servir interesses próprios. Fica desde já o esclarecimento: "Nós existimos para servir os interesses da população, não para servir os interesses pessoais do cidadão!" A diferença é simples: os interesses da população são (em princípio) comuns e estão salvaguardados nas leis pelas quais pautamos o nosso trabalho. Os interesses pessoais do cidadão podem ir do mais legítimo, ainda que nem sempre baseados na lei como alguns "chicos-espertos" pensam, até ao mais mesquinho que nós, gentilmente, apelidamos de "roupa suja". Neste contexto, posso dizer que a área onde presto serviço é uma gigantesca máquina de lavar roupa e nós, GNR, somos os glutões do "Presto" prontos a atacar a sujidade, tal é o número de situações destas com que me deparo durante o serviço!

Dou-vos aqui um belo exemplo:
"Uma senhora telefona para o Posto a chorar e afirma que está um homem dentro da sua propriedade e que se recusa a sair e que, por isso, ela sente-se ameaçada e com muito medo." O que é que ficavam a pensar? A velhinha está em perigo! Se calhar, o homem quer assaltar a casa aproveitando a sua fragilidade! A história continua. "Velocidade acima da média, pois há alguém em perigo, e eis que chegamos ao local e vemos um homem junto à janela a falar com alguém no interior da casa. O homem vê-nos, eu mando-o sair da propriedade e pergunto-lhe quais as suas intenções. Ele, meio choroso, diz que não sai dali enquanto a doce velhinha não lhe pagar o que lhe deve!" Mau! Então a velha é que está em perigo e ele é que chora? Será que ela lhe descascou alguma cebola nas trombas para o afugentar? "Peço à senhora para sair e ela aproxima-se em passos pesados, com o seu olhar cândido e inocente tapada pelo seu xaile de renda. A verdadeira avózinha que todos nós gostávamos de ter." Ouvidas as partes, descubro que o pobre coitado tinha passado o Verão todo a fazer reparações em casa da avózinha e que estava ali porque ela lhe tinha prometido pagar o que lhe devia, neste dia! A arder com mais de €500 e com filhos para sustentar é legítimo que estivesse desesperado! Pergunta que se impunha e que eu fiz à avózinha: "Se a senhora se comprometeu a pagar o que deve e disse ao senhor para vir cá hoje, explique-me o porquê de nos ter chamado aqui!" Acreditem que fiquei em pulgas para saber a resposta! A senhora responde-me, sem pudores: "Era para ver se o mandavam embora!"-"Aahhhhh, bem me parecia. Boa tarde minha senhora, até à proxima! Noutras circunstâncias, claro!" Estão a ver? A velhinha em perigo transforma-se rapidamente em lobo com pele de cordeiro!!

Haja paciência...

sábado, 24 de abril de 2010

À beira do abismo!

No primeiro texto que escrevi neste blog afirmei que os assuntos que iria aqui postar seriam maioritariamente relativos à minha profissão que, como em tudo na vida, tem coisas hilariantes e outras tão sérias que, pela sua natureza dramática, não devem ser satirizadas ou ironizadas. O de hoje é um desses casos em que uma patrulha normal se poderia ter tornado num episódio trágico...

Tenho a sorte de trabalhar numa zona lindíssima muito apreciada por turistas, nacionais e estrangeiros. O local onde me encontrava hoje tem tanto de bonito como de perigoso, pois a sua paisagem é deslumbrante mas a sua natureza geográfica pode ser traiçoeira. Penhascos com cerca de duzentos metros de altura não são brincadeira...
A patrulha decorria dentro da normalidade até que fui abordado por um turista italiano, que no seu inglês arranhado, me perguntou se era normal as pessoas passarem a barreira de segurança. Eu respondi que não e pensei: "Ok, mais uma turista a tirar fotos onde não deve!". Mas é nestas alturas, que nos parecem mais do mesmo, que as coisas mudam abruptamente. 
Depois de me dirigir para o local que o turista me indicou vi uma senhora, imóvel, a centímetros do penhasco, a olhar fixamente para baixo. Assim que me aproximei, ela olhou na minha direcção a chorar compulsivamente. Foi aí que me apercebi que ela estava prestes a cometer suicídio...
Tudo o que se passou a seguir decorreu em câmara lenta. Parei imediatamente, a cerca de 10 metros dela, perguntei-lhe o nome e ela respondeu entre soluços: "Soraia!" (nome fictício). Ninguém sabe bem o que dizer nestes casos. Nem todo o treino policial do mundo me prepararia para uma situação destas. Ocorreu-me dizer-lhe que ela estava num local demasiado perigoso (que estúpido, como se ela não soubesse!) e sugeri que se afastasse do precipício para conversarmos com mais calma. Qualquer que fosse o problema teria concerteza uma solução e que tirar a própria vida não seria a melhor saída. Tentei tranquilizá-la e oferecer-lhe toda a ajuda possível. Ela permaneceu imóvel e hesitante a olhar alternadamente para mim e para o precipício. Foi nesse instante que o meu coração disparou. Ou ela fazia o que lhe pedia ou atirava-se. Se optasse por esta última eu nunca teria hipóteses de reagir porque estava demasiado longe para a poder segurar. Por outro lado não queria aproximar-me demasiado para não pressioná-la. Foram 10 segundos que pareceram horas. Parece que tudo ficou suspenso à minha volta à espera que ela saísse dali, de uma maneira ou de outra...
Inconscientemente, senti que precisava de fazer mais alguma coisa para a "descongelar". Disse-lhe que ia aproximar-me para a tirar dali. Surpreendentemente, ela rodou sobre si própria, deu um passo em frente e eu segurei-a. Ela agarrou-se a mim a chorar...
Por motivos óbvios não vou falar sobre o que ela me contou acerca dos motivos que a levaram a pensar em cometer suicídio. Apenas que um dos principais motivos prende-se com o facto de ela ser doente bipolar. Isso e uma série de problemas pessoais criaram uma bola de neve difícil de parar. O reencontro com os pais foi emocionante. Agarraram-se a ela, a chorar, felizes por ela estar bem. E deixaram-me com a lágrima no canto do olho...

Só penso que ainda bem que cheguei a tempo de a convencer a viver pelo menos mais um dia. Espero que esse dia a mais faça diferença para que ela possa encontrar um rumo na sua vida. E apesar das palavras de agradecimento dos pais, que deveriam ser dirigidas ao turista italiano que me avisou e que entretanto já tinha ido embora (se não fosse ele o defecho poderia ter sido outro) o que me deixou mais feliz foi o olhar embevecido que lançaram sobre ela para lhe dizerem que tem alguém que a ama profundamente e por quem vale a pena continuar a viver.
Para mim, isso é agradecimento suficiente... 

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Violência doméstica em que as vítimas... são eles!!

A história do nosso nobre povo é repleta de violência. Começou desde logo quando D. Afonso Henriques se lembrou que queria ser rei e desatou à porrada aos Mouros e aos Espanhóis para conseguir a independência deste cantinho da Europa. Não contentes, ainda nos pusémos a navegar pelo mundo fora para violentarmos os estrangeiros que tão sossegadinhos estavam nas suas terras mas que não tardaram a vergar sob o peso da nossa espada. Quem teve a sorte de não receber o tratamento à boa maneira lusitana cedeu à tentação das bugigangas que lhes foram oferecidas em troca do seu precioso território. Nada mais justo!

Esta superficial e breve síntese ajuda, a meu ver, a explicar certos casos relacionados com reis das bugigangas (sucata, entenda-se) e outras figuras menos sérias do nosso panorama político. O episódio em que D. Afonso Henriques teve que lutar contra a sua própria mãe foi o primeiro caso de violência doméstica registada nos anais da nossa história. Ora isto também ajuda a explicar os números assustadores da violência doméstica registados no nosso país. Quem sai aos seus não degenera!!

Quando se fala em violência doméstica qual é a primeira imagem que vos vem à cabeça? A mulher encolhida a um canto, assustada, ferida sob a figura ameaçadora do seu companheiro. E se os papéis se invertessem? Se a mulher violentada física e psicologicamente fosse um homem e a figura ameaçadora fosse a mulher?
Pois é. Os homens já não são como D. Afonso Henriques. Hoje em dia há muitos que mais parecem a Heidi. Desculpem-me o machismo mas esta é a realidade. Temos recebido cada vez mais denúncias de violência doméstica em que as vítimas são homens. A vergonha de assumi-lo ainda é muita porque não se quer ser gozado por "levar na tromba da mulher", não se quer ser apelidado de "mariquinhas", de "panasca" e de outros nomes menos abonatórios à sua masculinidade.

Existem muitas mulheres que agridem os maridos de forma selvagem. Perguntaria D. Afonso Henriques: "E então umas bordoadas no focinho como resposta a tão vil cobardia?". Estas vítimas não o fazem pelos mesmos motivos que uma mulher não o faz. Por não quererem perder os filhos, pois muitas ameaçam fugir com eles, por não terem coragem para se defenderem (ou a força, porque algumas parecem pitbulls) ou por gostarem tanto da agressora que são incapazes de lhes tocar. Os efeitos também são os mesmos. Ficam fragilizados, envergonhados, sentem-se humilhados, angustiados e sem saber o que fazer. A coragem necessária para assumir que são vítimas de uma mulher tem que ser muito maior para também enfrentarem o estigma social de que também serão vítimas, muitas vezes por parte de familiares mais próximos, o que custa ainda mais.

Ultimamente e infelizmente têm sido muitas as notícias sobre violência doméstica que vêm a público, sendo que algumas delas acabam da forma mais trágica, acusando-se as autoridades de receberem as queixas mas de nada fazerem a favor das vítimas. Que isto fique claro! Não há meio de travar estes animais enquanto a legislação não o permitir, enquanto os mecanismos de apoio não forem suficientes ou enquanto o acompanhamento das vítimas não for adequado! A violência doméstica não é exclusiva entre marido e mulher. Também o é entre pais e filhos ou entre pessoas que vivam em situações semelhantes. Apesar de tudo, se tiverem conhecimento de uma situação destas denunciem. Muito ou pouco, nada se faz sem denúncia!

Vejam um exemplo de um tratamento cruel que uma mulher é capaz de inflingir a um pobre desgraçado!


quarta-feira, 14 de abril de 2010

Quando se bebe o juízo, o corpo é que paga!

Em vilas pequenas é normal serem realizadas, anualmente, as festas em honra do St.º X ou da N. Sr.ª Y. Aqui não é excepção. Também é normal haver vinho e cerveja a rodos para servir aos convivas durante o bailarico dançado ao som da banda filarmónica local. Aqui também não é excepção. Dito isto, já se pode concluir que há sempre aqueles que acabam a noite sem se conseguirem mexer, tal é a neblina que paira sobre eles.
O pobre desgraçado deste dia aterrou no meio da estrada, ao lado da bicicleta que habilmente conduzia, levando um condutor que passou por ali a chamar ajuda, pois não sabia se estava morto por ter sido atropelado ou se estava vivo e em coma alcoólico. Quem é que acham que ele chamou para o ir socorrer? Os Bombeiros? Nãããã. O INEM? Nem pensar! Algum familiar? Pra quê? Se calhar está pior que ele! Quem tem os meios necessários para socorrer uma vítima destas devidamente? Adivinharam. Nós, os gendarmes. Temos o aparelho do álcool para nos certificarmos que ele está embriagado. Nem foi preciso ligá-lo. Bastou vermos a quantidade de mosquitos mortos à volta dele para percebemos que aquele já não saía dali pelo seu próprio pé.

Quanto à razão que levou a pessoa que pediu ajuda a nem sequer sair do carro para se inteirar do estado de saúde do homem, tenho algumas teorias:
a) estava bêbado e nem sequer o conseguia distinguir de um cão;
b) estava bêbado e não queria ser apanhado com sangue no álcool;
c) estava bêbado e com medo que o "defunto" acordasse tipo "Exorcista" e lhe vomitasse para cima;
d) estava bêbado.

Venha o diabo e escolha.
Bom, já ter telefonado não foi nada mau...

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Obras à Portuguesa!

A propósito deste post lembrei-me de uma das muitas peripécias que já passei nesta minha curta carreira (o melhor ou o pior ainda estarão para vir).

Estava eu a controlar trânsito numa das muitas obras que se fazem neste concelho (bem no meio da estrada como convém!) quando me deparo com um dos muitos "voyers" destes magníficos feitos de engenharia, (velhote reformado sem mais nada para fazer entenda-se) e presencio, mais coisa menos coisa, o que passo a descrever:

O velhote aproxima-se, confiante, e dispara:

- "Deus ma livre! Isto tá tudo mal vedado! Se um home apanha uma bubadeira já não pode ir seguro pra casa. Um gajo já vem fosco, se passa aqui e não vê o buraco, pra além da zoeira da ressaca ainda vai ter que aguentar as dores de cabeça por ter malhado com os cornos no buraco!"

A seguir, depois de ter ficado atravessado na garganta de quem o ouviu mete a conversa de circunstância para se fazer de entendido:

-Então Sr. Engenheiro? Tá tudo bem? (como se fossem grandes amigalhaços)
-Eu não sou o engenheiro, sou só trolha. O Sr. engenheiro tá ali!
-Ah, claro! É o do capacete amarelo, não é?
-Não, esse é trolha como eu!
-Hmmm! Então deve ser o do capacete vermelho...
-Também não. Esse é o encarregado. O engenheiro é o que tem o capacete branco. (entretanto murmura algo entredentes que me soa a "besta de me#$%")
-Então Sr. Engenheiro, estão a fazer obras da electricidade, hã? Isto anda mal iluminado, ainda bem que vão arranjar isso!
-Nós somos do SMAS e estamos a arranjar condutas de água para abastecimento aqui da zona. Obras da EDP são no buraco ao lado!
-Pois, já percebi! Então por isso é que eu fiquei sem água hoje de manhã! E eu a pensar que ma tinham cortado!
-Nós ainda não interrompemos o abastecimento por isso se calhar cortaram-na mesmo!
 
Hora do respeitoso velhote meter a viola no saco e ir bancar o sabichão para outra freguesia. Pôs-me a pensar que a idade é sinónimo de sabedoria o que não significa sinónimo de inteligência...
 
Depois do senhor ter voltado a correr para casa como podia, com os calcanhares quase a bater na nuca, eis que começam os trabalhos propriamente ditos. Máquinas a trabalhar, pás e picaretas nas mãos, o suor a escorrer na testa, ar sério e empenhado e... nada! Mais de sete pessoas no local, todas a olhar para o coitado do trolha que, dentro da trincheira, tentava a todo o custo disfarçar o buraco na conduta de água que o manobrador da máquina entretanto rebentou, o outro trolha, num ritmo frenético, a mandar-lhe terra para cima convencido de que o estava a ajudar, o encarregado a espumar-se de raiva com o manobrador que, sentado no seu trono de sete toneladas fingia que não ouvia, e o engenheiro atrapalhado, a gaguejar, sem saber o que fazer! (Também deve ter tirado o curso por correspondência!)
E o velhote, que entretanto voltara, a rir às gargalhadas...

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Bairros Sociais

Existem muitas zonas no nosso país, principalmente nos arredores das grandes cidades, onde são construídos os chamados Bairros Sociais. Caracterizam-se pelo baixo custo de construção, com qualidade a condizer, são quase todos iguais (os arquitectos que os projectam têm uma imaginação pouco fértil) e destinam-se, normalmente, a realojar famílias carenciadas que de outro modo estariam a viver em bairros de lata num qualquer descampado disponível e têm fama de serem um foco da prática de crimes onde a "bófia" não é benvinda. Esta é a minha definição teórica que julgo ir ao encontro da maioria das opiniões.

Realidade? É muito mais do que isto. Senão vejamos: 
- Porquê que são chamados de Bairros Sociais? Cada uma destas urbanizações tem um nome próprio que nunca é utilizado. "Sou do bairro 25 de Abril." - "Qual? Ah, és de um bairro social!!" Qualquer outra urbanização tem características semelhantes e não é por isso que têm o mesmo nome. Aliás, se vivemos em sociedade, todos os bairros são sociais. A explicação é simples: esta designação é depreciativa e é usada para nos referirmos a locais que não interessam nem ao menino Jesus.
- Quanto ao realojamento, acho que é positivo. Os bairros de lata devem acabar e se as pessoas podem viver em locais mais condignos, tanto melhor. Mas a que custo? Será justo todos nós pagarmos a construção desses bairros destinados a algumas pessoas que dizem: "Se é para viver numa casa tão pequena prefiro viver na barraca. A mobília que lá tenho não cabe na casa nova!" Mais uma vez digo que a culpa é das Câmaras Municipais e dos arquitectos e engenheiros que projectam estes bairros quando, ao fazerem o levantamento das famílias necessitadas, não contemplam os seus bens para lhes poderem dar espaço para colocarem a tralha! Outra coisa inconcebível são as altíssimas rendas que sujeitam as famílias a pagar (algumas chegam à exorbitante quantia de 35 euros por mês!!!), originando dívidas de meses e meses, que o rendimento de reinserção que estas famílias têm direito e os outros rendimentos não declarados, não chegam para pagar! Isto explica o facto de algumas pessoas não investirem nas habitações e, logicamente, terem que comprar carros topo de gama! Isto põe-me a pensar. Eu é que fui otário quando pedi um empréstimo para comprar casa. Tinha agarrado numas tábuas e nuns pregos, construía uma barraca em frente à Câmara Municipal da minha zona e esperava que me dessem uma casa nova num desses bairros. Mas com pouca mobília dentro para caber toda na casa nova...
- Quanto ao espaço no interior das habitações é mais uma falsa questão. Já efectuei buscas domiciliárias em casas destas, T4 com mais de 100m, melhores que a minha casa. Ah, quase me esquecia de referir que um dos critérios de atribuição de casa é o número de membros do agregado familiar. Tem toda a lógica. Uma família maior necessita de mais espaço. O problema é que em casas onde supostamente deveriam estar a viver 4 pessoas, vivem 15! Não acreditam? Eu já vi e isso ninguém pode negar. Não é condigno, não é saudável mas é uma realidade que eu não desejo a ninguém. 
- Quanto à criminalidade... bom, isso é mais a minha praia. Pela experiência que tenho são de facto foco de problemas. Não no seu interior, porque todos se conhecem e quase ninguém se atreve a fazer nada de mal lá dentro, mas porque alguns grupos que ali residem têm uma constante necessidade de afirmação perante grupos rivais e uma necessidade enorme de protegerem o seu território. É comum ouvi-los dizer "Este bairro é nosso! Aqui quem manda somos nós!" Nada mais errado. O bairro é dos contribuintes que pagam para que eles possam ter uma casa e a única coisa que eles mandam são ofensas e agressões a quem se atreve a dizer o contrário. Apesar de haver muita gente desses bairros que condena este tipo de comportamento, não se atrevem a dizer nada porque as represálias rapidamente se fazem sentir. Os restantes estão do lado deles e insurgem-se contra nós, Polícia, quando actuamos "no seu" território. "Lá estão outra vez os bófias a bater nas criancinhas! Deixem-nos em paz! O carro que eles gamaram não vale nada! A gaja que roubaram é uma galdéria!" Acham que estou na tanga? Enganam-se. Já ouvi isto e muito mais.
- Mas quem são "eles" afinal? Sem querer dissecar muito as falhas educacionais que os levam a seguir a vida do crime, digo apenas que são, na sua maioria, jovens que optam pela via do dinheiro fácil, quer seja através de roubos ou de tráfico de droga, que se afirmam socialmente através do medo e da violência que incutem aos restantes cidadãos, que nos odeiam de morte e que não têm qualquer receio de nos confrontar, porque afinal, somos os principais obstáculos à sua "actividade remunerada".

Não quero de maneira nenhuma julgar o todo pela parte. Apesar de já ter vivido algumas situações muito complicadas em locais destes não posso dizer que todos são isto ou aquilo. Nos bairros que conheço, a maioria das pessoas são honestas, trabalham para pagar as suas contas, levantam-se às seis da manhã para irem trabalhar e merecem todo o meu respeito porque também elas sofrem com o que se passa lá dentro e muitas vezes são descriminadas pelo facto de morarem no bairro X ou Y.

Sem tirar a devida culpa aos jovens desajustados, que na sua inocência ainda acreditam no lema do Robin dos Bosques de "roubar aos ricos para dar aos pobres", julgo ser pertinente dizer que os principais culpados são os poderes locais. Concordo que dêm melhores condições de vida a famílias carenciadas, concordo que sejam atribuídos subsídios a quem realmente necessita mas não posso de deixar de pensar que estes locais servem para juntar o que muitos consideram ser o lixo da sociedade. Estão todos ali, sabe-se de onde vêm. Manifestavam-se à porta da Câmara Municipal, agora já se calaram. Há crimes aqui na zona? São eles, está o problema identificado, a Polícia que os ature!

O objectivo é reintegrá-los na sociedade? Pois bem. Dêm-lhes responsabilidades sociais. Obriguem-nos a trabalhar e a contribuir para o bem da sociedade. Parem de lhes incentivar a preguiça com subsídios atribuídos a pessoas que têm bom corpo para trabalhar e que recusam empregos porque vão ganhar menos do que aquilo que já recebem. Aos que realmente querem trabalhar e não conseguem arranjar emprego, procurem activamente uma oportunidade, não esperem que vos caia em cima nem usem isso como desculpa para cometerem crimes e fazerem mal a terceiros.

Porquê juntá-los a todos no mesmo sítio sabendo de antemão que os choques culturais vão causar problemas mesmo no interior dos bairros (A Quinta da Fonte não vos abriu os olhos?). Se algumas destas pessoas têm tudo de mão beijada e não aproveitam, então as regalias têm que lhes ser retiradas e dadas a quem realmente necessita. Existem demasiados "mamões" que se aproveitam das políticas sociais para viverem à grande sem que ninguém contrarie essa tendência.

São "eles" que têm que se adaptar à sociedade e não a sociedade e "eles". A isso chama-se reinserção. Enquanto os continuarem a levar ao colo isso nunca será possível, porque a ausência de responsabilidades acomoda. E o comodismo e o conformismo não se coadunam com a evolução...